Perdoar sem limites e sempre
Dom Vilson Dias de Oliveira
Bispo Emérito de Limeira (SP)
PERDOAR SEM LIMITES E SEMPRE – XXIV DOMINGO T. COMUM
A largos passos em nosso itinerário litúrgico-catequético, o XXIV Domingo do Tempo Comum nos apresenta a chave de bóveda (ou chave de abóboda que suporta o arco numa obra) que sustenta a superação das divisões e a restauração da comunhão eclesial sobre as quais meditávamos no domingo anterior. Se o XXIII Domingo nos fez olhar para as feridas das nossas polarizações internas, das guerras culturais e dos fechamentos ideológicos, chamando-nos à coragem da correção fraterna e à unidade na diversidade, o Evangelho de hoje – Mt 18,21-35 – nos revela que nenhum diálogo eclesial, nenhuma escuta sinodal e nenhuma superação do espírito de facção resistirão se não forem enraizados na graça radical do perdão ilimitado. A comunhão da Igreja não se constrói sobre acordos diplomáticos ou tolerância superficial, mas sobre a experiência viva de ser infinitamente perdoado para poder perdoar sem medidas.
A pergunta do apóstolo Pedro expressa com precisão o cálculo humano e contábil com o qual frequentemente administramos nossas relações e divergências no ambiente eclesial: “Senhor, quantas vezes devo perdoar se meu irmão pecar contra mim? Até sete vezes?” Para a lógica do mundo e para o nosso moralismo particular, perdoar sete vezes já pareceria um heroísmo virtuosístico. Contudo, a resposta de Jesus desarma as nossas trincheiras e expõe a insuficiência do nosso critério: “Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete”. Com esse número simbólico, o Senhor não nos impõe uma contagem aritmética, mas exige a abolição da contabilidade do ressentimento, convidando a Igreja a respirar a atmosfera da gratuidade, onde o perdão é o princípio normativo de toda a convivência fraterna.
A parábola do servo impiedoso coloca em evidência o escândalo da incoerência eclesial. Um rei clemente perdoa a seu servo uma dívida astronômica e impagável, equivalente a toneladas de ouro, representando a gratuidade absoluta da salvação que Cristo nos conquistou na cruz ao cancelar o abismo dos nossos pecados. No entanto, aquele mesmo servo, recém-liberto de sua condenação, agarra pelo pescoço um companheiro que lhe devia uma quantia insignificante, recusando-se a ter compaixão. A advertência de Jesus é severa: a incapacidade de perdoar o irmão neutraliza a eficácia da misericórdia divina em nossa vida. Um coração que guarda a mágoa, que alimenta a vingança virtual ou que exige a retratação do irmão para só então oferecer o afeto, torna-se impermeável à própria graça que o salvou.
Essa Palavra atinge diretamente a vida dos nossos organismos pastorais, conselhos, movimentos e a dinâmica de relacionamento entre as diferentes correntes da Igreja. Não podemos proclamar ao mundo a boa-nova do Evangelho se internamente nos comportamos como credores implacáveis dos erros, das limitações teológicas ou das sensibilidades dos nossos irmãos. O perdão “70 x 7” é o único antídoto capaz de curar o vírus do cancelamento eclesial, da acusação mútua e da rivalidade entre leigos, clérigos e comunidades. Quando a experiência da misericórdia precede o julgamento, a diversidade de carismas deixa de ser vista como ameaça e passa a ser acolhida como dom, permitindo que a Igreja local e universal atue com verdadeira autoridade moral diante de um mundo fragmentado.
Em uma escala global e civil, este ensinamento reforça a vocação da Igreja como sacramento de reconciliação para os povos. Diante das fendas históricas e culturais que separam continentes, nações e grupos sociais, os católicos são chamados a oferecer o testemunho profético de quem sabe romper as correntes do ódio antigo e do ressentimento acumulado. O perdão cristão não apaga a verdade nem anula a justiça, mas liberta a memória da espiral do desforro, abrindo espaço para a paz onde a política humana só enxerga o impasse.
Ao nos aproximarmos da mesa eucarística, onde a cada Missa o Sangue da Nova e Eterna Aliança é derramado para a remissão dos pecados, apresentemos no altar o nome daqueles irmãos, correntes ou grupos contra os quais alimentamos resistências e julgamentos. Peçamos ao Senhor a graça de romper com o “calculismo” das ofensas, para que, lavados pela misericórdia do Pai, possamos estender aos outros a mesma compaixão que diariamente nos sustenta, tornando a nossa Igreja um refúgio de paz e um luzeiro de esperança para todo o povo de Deus.
Com informações de www.cnbb.org.br.

